Inequívocos

Nada era mais confuso. Encontraria com ela, a ex, numa dessas festas de faculdade. E põe festa nisso: gente, bebida, gente, bebida, barulho, barulho. Mas combinaram de se ver, pela primeira vez desde o fatídico “pé na bunda”. Ele dizia que era ela. Ela, imitando a musiqueta da Blitz, dizia que era ele. Mas o fato é que ambos descalçaram as chuteiras e resolveram se ver. Devia ser a saudade e um pouco mais.

Enfim, era tudo confuso. Encontrar com ela naquela multidão seria enrosco. Enquanto a pista era tomada por corpos e mais corpos, vários atraentes ao olhar e aos toques, risos trocados, selinhos roubados e até um beijão de língua, daqueles de sessão da tarde, ele a viu. “Cacete, que tesão ela tá!”. E estava mesmo. Blusa decotada e uma calça jeans, nem apertada nem solta. As formas todas ali, arredondadas, trilhas que ele trilhava de olhos fechados. Um sorriso maroto no rosto e aquela cara vermelha, uma vergonha desavergonhada. E o pescoço nu, que para ele era a lembrança mais fatal de todas: Ela tinha cócegas no pescoço que se espalhavam pelo resto do corpo.

A confusão ali era enorme e a vontade de tirá-la para algum canto era mais obstinada que a confusão. Pouco falaram palavras. Pouco, quase nada, conversaram. Mas dialogaram com os corpos numa visível indiscrição de quem se quer. Não existe, sabemos, nada mais que o beijo. O beijo bem dado, aquele que tem tudo, mostra tudo, desvela detalhes já é a consumação, o ato, o sexo.

Correram para algum canto de festa, desses lugares que sempre existem e que são feitos para que os amantes corram riscos, mas possam. Entre os gostos que já sabiam descobriram outros, o do perigo de serem pegos, o da saudade dos corpos e o da intensa vontade de pinto e buceta de se encontrarem outra vez. Mas durante a festa, a fome foi comida por boca, língua e dedos, numa operação que envolve aptidão, umidade e jeito. Ninguém sabia o sexo oral como ela, teve a certeza perfeita quando a língua passou pela veia saltada que pulsava latejando. E ele certamente sabia como poucos que exatamente ali, entre o grelo e a gruta, nada de pressa ou descaso era permitido, mas obstinação.

Não foram pegos. Mas também não foram para nenhum motel depois. No silêncio deles, sabiam que era melhor assim e que manter o tesão é mais difícil do que perder a razão.

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