Aos teus pés…

Tinham trocado olhares. E só. Bem pouco tempo depois, trocaram novos olhares. Desta vez, se mediram. Um tanto, um pouco, um lance. Noutro tempo mais tarde, já se olharam nos olhos. Espinha, barriga, nervos. E cheiro.

Era um frio de rachar madeira. Coisa de inverno, mesmo. Muita roupa. Naquele dia, porém, ela só podia usar sandália. Alguma dessas razões da natureza. Optou, então, por um salto alto. Já que ia passar frio, que ficasse mais alta.

Ela tinha pés pequenos, mas torneados. Aquele formato de pé de revista. Os pés? Sim, de fora, só com as unhas pintadas. Vermelho, sempre. Os olhos dele quase não mais desviaram dela. Teve que sair de banda, para não dar na cara.

Em casa, ao chegar, só conseguia pensar nela. Todo o jeito dela. Descobriu o sorriso dela. Quase lembrou do cheiro e da textura da voz: “Oi”. Mas quando foi se deitar, foram os pés dela que lhe tiraram o sono.

Alta, algo lhe dava mais frescor. Talvez segurança. Pisava firme. Na mira daquele olhar se sentiu um pouco tímida, porém. Ele a devorava, com um olhar de longe, mas nunca distante. Até o incômodo do frio, passou. Até aquela preocupação normal, “Por que será que ela está sem meia neste frio?”, passou.

Demoraram tempos para se reencontrarem. Pareciam íntimos, porém. Pouco disseram. Muito se olharam. Foi inevitável, para ele, medir: Cabelo, óculos, boca, seios, quadril, coxa… pé. E ela, sem titubeios, firme: “É, estava bonita de salto naquele dia”. Ele disfarçou, mas não convenceu: boca seca.

Resistiram, ainda, alguns meses. No primeiro encontro, de fato combinado, planejado, foi a obviedade mais desejada: salto e unhas vermelhas. Não houve tempo para se despirem, nem para disfarces.

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