Tratados e Teorias e um beijo na nuca

 

Tinham uma urgência necessária: se comerem, mutuamente. Distantes, porém. Cada um numa cidade, cada um numa história de vida, cada um num canto de vontades. Mas a urgência, a mesma: se comerem.

O verbo comer para designar o sexo sempre me atraiu. É comer, sim. No sentido de degustar, paladar, gosto, saliva, fome, ato físico, instinto. Sem contar que a imagem da penetração, seja dos sexos, seja dos dedos, da língua, dos brinquedos, remete imediatamente ao ato de comer. Evidente, foder é outro verbo que cai bem. Encaixa, inclusive, na sonoridade: FODER.

Na urgência daqueles corpos havia febre. Havia o tato, do contato dos dedos com o corpo, da mão com o sexo dele, dos dedos com o sexo dela. Tinham a salivação de quem tem fome, a boca ressecada de quem deseja. Naqueles contatos não pessoais sentiam toda a urgência em forma de suores e de pensamentos libidinosos, encantados.

É óbvio que alguns vão dizer que o ato de serem comidos remete a algo passivo, em que uma parte só estoca, aponta, come. Mas é um pensamento torpe. No sexo, comer é simbiose. Quem é comido, come. Engole, nutre, tempera. As melhores definições talvez estejam nos oroboros, nas fagocitoses, nas entranhas molhadas e na ereção pulsante.

Sabiam que não iriam dar cabo daquela urgência. Intimamente, sabiam também que talvez fosse impossível. E quando ela afirmava que não mais agüentaria, ele diria nada. Apenas apertaria o falo, deixando a ejaculação ir mais longe, para tentar encontrá-la.

Não há nada como esta dádiva: Saber que se trepa não por obrigação sistêmica, mas por absoluta vocação orgânica. Escreveu suas divagações. E ela leu cada linha, como se fossem sussurros no pescoço, beijos na nuca e a contemplação que virá depois do gozo.

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