Cousas que a valha

 

Dizem que as melhores cousas da vida são, de fato, as melhores cousas da vida. Um copo de vinho, de bom vinho. Sim, e vinho não tem que ter bússola para ser bebido, caderno de interpretação de texto para ser servido. O bom vinho é aquele que nosso paladar alegra, nosso olfato viceja, nossos olhos degustam. Um bom prato de alguma comida que lhe mexa com os brios: desde um simples quiabo com alho, uma salada com folhas exuberantes, azeite a gosto, sal e pimenta. Do reino. Até o infinito de uma costela.

 

Cousas que a vida agradece, apetece, saboreia. Um clássico de Coltrane na veia. Um Purple, de qualquer das fases, no momento certo, exato, nosso. E quando digo nosso, converso comigo mesmo. Porque há nesta vida a necessidade intensa do prazer egoísta, daquele prazer que nos consome o cérebro, nos faz ter falta de ar, rarefeito. Raros. Um Getz/Gilberto, com um copo de uísque e pouquíssimo gelo. Um charuto, talvez. Um baseado, bem bolado, guardado para aquela ocasião. Enfim, cousas que a vida oferece, enaltece, engrandece.

 

E é assim que te vejo neste momento. Sei que está linda, ruborizada, um pouco bêbada. Sinto que ri e que, hoje, o rir te faz bem. Sinto teu corpo quente pelo rosado de tuas bochechas, pelo bico do teu seio esquerdo que insiste em te denunciar. E sei, desesperadamente, que teu vestido está solto, sem mediações, que tua pele roça o pano, dos ombros à tuas coxas. Cousas que neste momento queria que fossem eternas, eternas até a hora de poder sentir, de perto, ao toque, ao gosto, ao ouvido, tuas nuances, teu remexer, teu sexo ensopado, melecado, molhado, especial, extraordinário, elegante, sincero. De tesão sincero.

 

Queria esticar este tempo ao infinito, sincera e honestamente. Pois neste jogo de olhares, de pequenos toques com os dedos, nossos dedos, nossos calores construindo tudo o que será daqui a pouco, daqui a uma hora, duas, três, quinze dias. Teu mamilo direito agora é quem te deixa nua. E você continua linda, bebe teu vinho como quem espera o beijo, o tato, a febre. Desde aquele instante em que pela luz percebi teu vestido e você, e mais nada, nada, nadinha de nada, que estou querendo que o mundo acabe, depois de nós, depois de tudo. Puta que pariu, sentir este tesão é daquelas cousas que marcam a vida. A vida? Não, a existência. Existi por este momento. E depois, posso desistir. Mas depois, sim, depois.

 

Ainda não sei como é teu sexo. Se é rosado, se o clitóris aponta, se os lábios são grandes, finos, espessos. Sei que neste exato momento molhados como ele já está. Aqueles devaneios fálicos, que querem e perseguem uma espécie de morte, de tão rijo, de tão feliz, de tão que pulsa. Dizem que o gozar de um homem está no ejacular. Não estudei isso, confesso. Mas para mim o gozo começou no beijo no teu rosto, dizendo alô. No gole de água que você tomou as pressas, no teu arrepiado quando toquei teus braços, no teu lábio ressecado e tua língua púrpura, do vinho e da vontade, o umidecendo. O gozo, o orgasmo, o sexo.

 

“Garçom, por favor, a conta”.

 

Ouvi tua voz, mas continuo nesse sonho real, quente e lúbrico. E reconheço: É dessas cousas que vivemos. No mais, no mais é mera hipoteca.

 

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